quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

30 MOEDAS

O trampo já não tava mais dando pra segurar as contas do barraco. Água, luz, comida, prestações. Dava o máximo de mim pra no final do mês receber uma mixaria. Sabe quando você já acorda sem disposição pra ir trabalhar? Não conseguia mais achar motivação em nada, e o pior é que quem menos merecia é que acabava sofrendo as conseqüências do meu mau humor. Chegava em casa discutindo, reclamando, dando ordens. Não sei como a nega véia ainda suportava tamanha ingratidão. Sempre foi guerreira, daquelas de fibra mesmo, tão raras hoje em dia. Tinha uma vida na medida do possível confortável ao lado dos seus pais no interior e mesmo assim preferiu tentar a vida comigo na cidade grande.
Mas a situação estava cada vez mais fora do controle na fábrica. Não nasci pra servir de massa de manobra nem pra ser mandado por ninguém. Gosto de fazer minhas coisas na minha, tranqüilo, sem precisar ficar ouvindo da forma como devo fazer. Como se já não soubesse executar minhas tarefas. E nunca estava da maneira que o patrão queria, sempre achava um defeito, uma imperfeição.
E cada vez mais eu tentava me esquivar dos convites da rapaziada quando chegava na esquina da vila. Aquela aglomeração, aquela fumaça cobrindo cada corpo, tudo já tinha feito parte do meu passado, mas hoje não queria mais essa vida pra mim. Foi um passado que prefiro deixar lá atrás, não quero ter que passar por tudo o que já passei. Sabia que cada alma que ali se encontrava, era uma alma sem luz, sem perspectiva, que mais cedo ou mais tarde o que estava destinado pra cada uma delas, viria de fato aos seus encontros.
Numa noite que chovia muito, desci do ônibus e resolvi esperar na esquina com a rapa a chuva dar uma estiada. E nessa coisa de passar um beck pra cá, outro pra lá, um cachimbo se acendendo ao meu redor, não consegui recusar a oferta. Sabia que em casa, ali tão próximo, minha guerreira me aguardava para engolir mais uma de minhas neuroses, e que mesmo assim continuaria firme, enfrentando como sempre cada palavra proferida por mim. Palavras de raiva, ódio, frustração, enfim..
Só que como fazia muito tempo que não dava uns pegas, a bomba pegou de jeito, me deixando numa neurose louca, numa vibe elétrica. E dali pra uma cachimbada foi um tapa.
Cheguei em casa ainda na fissura de querer mais, de fazer com que todas as minhas psicoses fossem tragadas na lata. E como sempre, cheguei com o diabo no corpo. E prometi pra mim mesmo, que dali em diante não seria só mais um operário, que não vim ao mundo para servir, para fazer a riqueza do bolso alheio. Era chegada a hora da minha redenção, de fazer com que a fatia do bolo chegasse até minha pessoa. Só quem serve é que sabe o quanto dói ver seu patrão chegar todo os dias num carro importado enquanto você vem todo apertado numa condução coletiva. E ainda por cima aturar sua estupidez. Chega!
Meti o cano na cinta, dei um beijo na minha mulher, que ainda dormia e saí de casa. Não consegui dormir a noite, fiquei olhando para o teto arquitetando meu plano. Na primeira palavra dele contra meu serviço, acertaria as seis balas no seu peito, calando para sempre sua voz que só aprendeu a tratar seus funcionários com desdém.
Mas uma reviravolta aconteceu.
Fui chamado para comparecer em seu escritório com urgência, no meio do expediente. Nunca havia sido convocado assim no meio do turno para uma conversa a sós com ele. Já fui pensando em como iria desferir os disparos.
Bati na porta e recebi a liberação para entrar. Me deu mais raiva ainda ao sentir aquele ar refrigerado, um ambiente totalmente climatizado, diferente da caldeira onde era obrigado a passar oito horas do meu dia. Estranhei sua gentileza ao oferecer-me uma água. Aceitei, pois já estava com a garganta seca, pronto para executar minha ação na primeira ofensa que ele me fizesse.
O que ouvi de sua boca foi totalmente inverso ao que esperava. Elogiou meu serviço, disse que havia tempos que me observava, que estava feliz com meu empenho dentro da empresa e que a partir de hoje minha função seria de encarregado geral da fábrica, elevando assim em R$ 200,00 meu salário. Diante disso não tive outra alternativa senão aceitar sua promoção.
No caminho para casa, passei na esquina onde na noite anterior havia pré-destinado minha alma, tirei meu 38 da cintura e troquei por R$ 100,00. No bar do seu Zé comprei algumas coisas para casa, uma garrafa de vinho e cheguei em casa aliviado e pedi para a nega véia botar sua melhor lingerie, que a partir de hoje nossa vida seria diferente. Depois de uma noite maravilhosa de sexo, acordei, tomei um banho e peguei minha condução. No caminho pensei comigo: como as pessoas que tem dinheiro nos compram fácil né?

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